Tuesday, February 13, 2007

TERRA DO DIABO

I would suggest that you pay close attention to what we regard as untutored people and how they approach their problems, how they approached them in the past, and how they still approach them. Of course, I mean vernacular architecture. I think quite often people naturally do things when left to their devices, do things very well, and solve an awful lot of problems that architects tend to forget.

In Perspecta 4,
Paul Rudolph, 1957




Prova de Licenciamento em Arquitectura orientada pelo Arqt.º Domingos Tavares
Estágio feito no Gabinete de Projectos da CMP orientado pelo Arqt.º António Moura
Agradeço ao Professor Arqt.º Domingos Tavares pela sua orientação, ao Eng.º Ilídio Araújo pelo seu tempo, ao meu amigo Eng.º Daniel Portela da CM de Celorico de Basto e a todas as pessoas que me abriram as suas portas para elaborar este trabalho e beber umas pingas.
Quero também com este trabalho agradecer aos meus pais e à minha irmã por me terem aturado durante tantos anos.
Á Rita Serrano e ao seu pais.
Ao Sr. Jorge da secretaria, ao Álvares e todas as pessoas aqui não mencionadas que também me ajudaram e deram a força necessária para conseguir concluir este trabalho.

antony sousa de lemos
Porto, Agosto 2007






Introdução


Com este trabalho pretende-se conseguir conhecer melhor o que são as casas de lavoura. Pretende-se perceber lhes o conceito.
Para isso é preciso conhecer um pouco da história peninsular para compreender melhor o ela que significa e de onde vem a casa de lavoura. A compreensão da casa de lavoura, por sua vez, não só pressupõe conhecer um pouco a história agrícola mas também tomar consciência do próprio sistema agrário da região em estudo, bem como os costumes do povo autóctone.


Ainda hoje, nas regiões montanhosas, onde o regime é pastoril e comunalista, se vêem os povoados constituídos como nas antigas povoações da idade do ferro, ...
In O homem e a casa a casa e o tempo,
António Lino.


Até há muito poucos anos pouco ou nada mudou nos hábitos de um povo que aprendeu ao longo dos séculos a sobreviver num meio tão agreste como o Planalto da Lameira. Aprendeu a encontrar-se um meio de subsistência nos vales dos pequenos riachos e a proteger-se dos ventos ora frios e chuvosos de norte ora as tempestades trovejantes vindas de sul. E as habitações, verdadeiras máquinas agrícolas, reflectem ainda esta forma de subsistência.
Devemos esta estratégia de viver na lavoura a dois acontecimentos em particular.

A construção, que até há pouco julgávamos ser uma herança do fabrico medieval, com estudos... é aos romanos que temos de a ir buscar.
In As vilas do norte de Portugal,
Alberto Sampaio.


O primeiro prende-se com a ocupação romana, pois foi este povo que, na implementação da sua politica de unificação e uniformização, espalhou o seu sistema agrário e as suas técnicas de construção por todo o mundo imperial.
O segundo, séculos mais tarde, foi o resultado da descoberta das Américas pelos espanhóis. A introdução do maiz. O milho. Uma descoberta que revolucionou as vidas dos agricultores do velho mundo pois requeria mais trabalho, mais cuidados e novas infra-estruturas para a sua exploração.
As restantes revoltas, invasões e outros tumultos de carácter politico ou cultural passaram um tanto ao lado, pouco ou nada influenciando a vida na lavoura.


Abstracto


A casa tradicional. A Casa de Lavoura.
O que é a casa tradicional, como é feita? Como e de que origem é que elas surgem? E por quem? O que as torna tão em sintonia com o seu meio ambiente. Qual a sua importância? Qual o seu segredo?

A equipa do Arqt.º Fernando Távora, no ‘Inquérito à Arquitectura Portuguesa’ notou que a casa monumental setecentista, a casa Solarenga, tem as suas origens na casa tradicional de Lavoura. Servem-se dessas construções simples como modelo, enquadrando-se ao ambiente campestre onde se situam. Pois realmente nada mais são do que uma evolução mais abastada da casa tradicional, mantendo o essencial da vivência da primeira, e adaptando o resto a uma vida de menos trabalho pesado.

Se nos debruçarmos mais detalhadamente sobre certas casas do povo montanhês, detectamos uma forma de fazer herdada do sistema romano que se foi refinando ao longo de dois milénios.
A casa principal do dono dos terrenos – ou casa da lavoura – surge nas serras, complementando a paisagem, fundindo-se com ela, fazendo parte do meio, moldando-se e adaptando-se ao território com o saber de séculos.
Ao olhar com cuidado, vemos então a metamorfose natural da casa de lavoura que se processa à medida que alguns destes donos foram crescendo e enriquecendo. Autores como Carlos de Azevedo[1] defendem a torre militar medieval como o ponto de partida da casa solarenga.
A verdade é que, tirando-lhes as capelas, barroquices, e salões passam a ter uma casa de lavoura simples munida dos habituais galinheiros e currais, hortas, campos e moinhos…
Este trabalho é um olhar lento sobre as casas, os lugares e os caminhos, é uma reflexão demorada sobre significados e uma tentativa de compreender um pouco mais uma maneira de fazer funcional na origem tanto das casas como de um urbanismo rural que as estradas de hoje não deixam entender.
Através do desenho, do estudo da planta, da foto e do passeio vão surgindo pequenos aspectos, pormenores e pensamentos que me levam a crer que deveríamos despender tanto tempo no estudo desta faceta da arquitectura portuguesa tão cheia de interesse e riqueza, como o de qualquer edifício ultra moderno de ‘alta costura’ deste novo milénio. Os nossos antepassados eruditos desenvolviam a sua arquitectura com simplicidade e com uma surpreendente sensibilidade e subtileza para resolverem ao pormenor os problemas da habitação, da forma e dia a dia da vida num meio rural e agreste. Arrisco sugerir que deveríamos procurar na Arquitectura tradicionais respostas para as dúvidas dos novos arquitectos. Formas, linguagens, tipologias, um olhar novo. Talvez neste caminho estejam as respostas para uma afirmação de identidade da arquitectura moderna portuguesa face à descaracterização da nossa paisagem com estrangeirismos arquitectónicos, entre outros artefactos mais ou menos disparatados.
[1] Solares Portugueses, Livros Horizonte, Lisboa, 1969.